"respeitar aos mais velhos é respeitar a si mesmo", certo?
faz sentido, é nobre, é moralmente correto, não há o que se discutir quanto a isso.
mas... por que não ouvimos falar com tanta frequência e entusiasmo sobre o respeito às crianças?
eu nunca ouvi falar sobre isso, a não ser em livros sobre educação não-ortodoxos (sobre unschooling, por exemplo).
a nossa sociedade não trata a criança com o devido respeito.
não damos espaço, tempo, poder de escolha, direito de se aborrecer, de errar, de se descontrolar, de regredir, de arriscar. pelo contrário, nós tolhemos e exigimos que a criança cresça logo e seja mais responsável pelos seus atos.
desde cedo exigimos que o filho controle as suas emoções, que tenha hora certa para brincar, para comer, para ouvir música, para sair, para tomar banho; que não grite, que não corra, que não se arrisque, que não suje, que não reclame....
no fim, acabamos por praticar o que talvez seja a pior forma de desrespeito, que é lhes tirar a liberdade.
no geral, impomos uma educação meio "tolerância zero" afim de evitar dores de cabeça e jogar as responsabilidades da vida logo no colo das crianças.
e cobramos os resultados em curto prazo também, é claro: ir pra escola cedo, aprender a falar e a ler logo, desfraldar o quanto antes, avisar o que quer assim que aprende a falar, parar de fazer xixi na cama, etc etc etc.
considero isso um desrespeito grave, uma vez que a criança perde, aos poucos, a sua natureza curiosa, instigante, questionadora, criativa e com imenso potencial.
como não respeitamos o seu tempo e as suas escolhas, ela passa a repetir os padrões que a gente espera e entra logo no esquema do qual fazemos parte.
e nada disso é novo, pelo contrário.
isso não é um mal da nossa sociedade corrida e cheia de disputas sociais, pois em épocas medievais representavam as crianças em pinturas como se elas fossem "mini-adultos", já que era assim que olhavam para ela.
não se reconhecia (ou não se compreendia) a infância: a partir do momento que deixasse de depender exclusivamente da mãe, a criança já ingressava no universo adulto.
hoje, não temos essa visão - ou falta de visão - tão deturpada sobre a infância e já reconhecemos a sua importância como etapa do desenvolvimento humano, no entanto, a cobrança social para que a criança se torne precocemente responsável não morreu.
apesar de termos evoluído em relação a escolhas pessoais, saindo dos grandes grupos (mass) e passando para os nichos (class), em alguns casos ainda somos maníacos por padrões e vivemos nos comparando com os demais e fazendo as mesmas escolhas. acredito que esse seja o problema na hora de educar um filho ou uma filha: não temos coragem de fazer diferente, de questionar, de mudar o rumo, de não querer fazer parte.
a consequência é o que eu já disse acima: tiramos a liberdade de escolha e o ritmo dos nossos filhos, pois exigimos que toda criança siga uma linha de desenvolvimento parecida, padronizada.
porém, quando damos espaço para a criança se expressar livremente e fazer suas escolhas (sem pressões), nos deparamos com exemplos maravilhosos do potencial infantil, como esse aqui:
respeitar o idoso é uma questão de moral.
respeitar a criança (e o seu ritmo) é respeitar o futuro, é respeitar o direito de mudança, de escolha, de quebrar paradigmas que nós impomos.
para mim, o respeito mais importante é o respeito à criança.
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terça-feira, 31 de maio de 2011
terça-feira, 31 de agosto de 2010
a aula de natação e a inevitável projeção
na última sexta-feira peguei folga do trabalho para acompanhar o tito em sua primeira aulinha de natação.
adorei ver a sua ansiedade para entrar logo na água, interagir com os outros bebês, brincar.
fora da piscina, esperando a hora para entrar, o pequeno mal se aguentava, olhava atentamente para a piscina, apontava, me olhava, olhava para a mãe, para a água novamente, se agitava...
foi uma delícia e foi inevitável não pensar "será tão legal se ele quiser ser nadador".
no mesmo instante sumi com esse pensamento da cabeça e foquei em apenas curtir o momento com ele.
ali, naquela hora, naquele ambiente acolhedor, e nada mais - sem sonhos para o futuro, sem "o que será que ele vai querer fazer quando crescer?", sem expectativas.
definitivamente não quero ser um pai que tenta fazer com que o filho realize os seus sonhos fracassados ou nunca tentados de outrora.
durante muito tempo fui nadador amador e eu amava isso.
durante algum tempo eu fui escalador (quase) amador e eu adorava isso.
durante sei-lá-quanto-tempo eu me esforcei para ser malabarista e hoje estou bem resolvido em assumir que é apenas um hobby e disso não passará.
e a lista segue.
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a nanã e eu combinamos que não queremos cultivar em nosso filho o sentimento de disputa, de competição, mas eu sempre lhe perguntava "e se ele resolve virar nadador e quiser competir? não vamos incentivar isso?".
era a minha vontade em ser mais alto e mais talentoso na natação sendo projetada ao meu filho e falando por mim.
a nanã adora dança e nos primeiros meses de vida dele dizia que seria o máximo se o tito se tornasse bailarino.
era a vontade dela em ter um filho artista falando mais alto.
o fato é que, no fundo, sabemos que ele será o melhor que ele puder ser naquilo que escolher fazer, e nós não devemos interferir em suas escolhas.
torceremos feitos tietes malucas por ele, seja em qual campo de atuação for, desde que seja para o bem.
e que saibamos conter nossos sonhos não realizados e nossas expectativas quanto ao seu futuro para nós mesmos, a ponto de deixá-lo livre para seguir seu caminho, feliz e confiante.
_______
meu filho, que você mantenha o brilho lindo que eu vi em seus olhos na sua primeira aula de natação para tudo aquilo a que se dedicar.
eu vou te apoiar e torcer muito para que você trilhe um bom caminho, seja ele qual for.
tenho certeza de que você se sairá muito bem.
eu te amo demais.
--
imagem: arquivo pessoal
terça-feira, 10 de agosto de 2010
mais carinho = menos estresse
no último 26 de julho o jounal of epidemiology and community health (jornal de epidemiologia e saúde comunitária) publicou um estudo que mostra que dar bastante carinho e afeto ao bebê nos primeiros meses de vida os ajuda a serem adultos mais equilibrados emocionalmente.
o estudo, intitulado "mother's affection at 8 months predicts emotional distress in adulthood" (algo como "afetividade materna até os 8 meses dita o sofrimento emocional na vida adulta") durou vários anos e contou com a participação de 482 pessoas (homens e mulheres) da cidade de rhode island, nos estados unidos.
já acreditava-se na forte relação entre o afeto materno nos primeiros dias e meses de vida do bebê com uma vida adulta mais equilibrada e tranquila do ponto de vista emocional, mas até então os estudos feitos baseavam-se unicamente em lembranças obtidas pelos entrevistados já na fase adulta.
o novo estudo teve início na década de 1960, época em que a interação entre bebês com até 8 meses e suas mães foi analisada por psicólogos e classificadas numa "escala de afetividade".
por meio de testes, vários dados a respeito da afetividade entre esses adultos quando bebês e suas mães foram comparados, sendo então relacionados ao seu controle emocional na vida adulta.
nos casos em que o "grau" de afetividade foi "baixo" ou "normal" não foi observada muita variação entre os níveis de ansiedade, hostilidade e controle emocional dos adultos. no entanto, quando a afetividade entre mãe e bebê foi considerada "elevada", os adultos mostraram desempenho muito melhor a respeito desses indicadores.
diz o estudo: "elevados níveis de afeto das mães para com seus bebês de até 8 meses são associados a menores sintomas de problemas emocionais em seus filhos 30 anos mais tarde, quando comparados a filhos de mães que demonstraram índices baixos ou normais de carinho e afeto".
"as descobertas apresentadas apóiam fortemente a afirmação de que até mesmo as experiências dos primeiros momentos de vida de um bebê podem influenciar na sua saúde adulta e enfatizam a importância de se ter um relacionamento altamente afetivo (com o bebê)".
--
imagem: arquivo pessoal
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terça-feira, 16 de março de 2010
quando me pego cantando
o tito presta bastante atenção em vozes masculinas.
talvez pelo tom grave ser tão diferente do da mãe, normalmente suave e constante.
quando tem uma roda de pessoas conversando, normalmente ele pára de brincar e fica com o olhar atento a todos os sons, todas as vozes; mas isso acontece especialmente com vozes masculinas.
não sei se acontece com outros bebês, mas é algo que estamos curtindo descobrir junto dele, observar, rir.
hoje pela manhã estava preparando o café com a nanã, tito na cadeirinha, e eu começo a cantar uma música do karnak, que tem o tom bem baixo, bem grave.
depois de um tempo olho para o lado e vejo ele me encarando com as sombrancelhas levantadas, a boca aberta e um olhar de "o que é isso que o papai tá fazendo?".
muito lindo.
eu parava de cantar e ele voltava a brincar, a se interessar pelas próprias mãos, pés, etc.
voltava a cantar e a mesma cara de atenção e surpresa voltava ao seu rostinho.
eu sorri.
será que isso acontece apenas pela diferença da voz mais aguda que ele ouve o dia todo, desde a gravidez?
será que instintivamente ele sabe que a sua voz ficará mais grave no futuro?
será que eu to viajando?
abraço.
até semana que vem!
talvez pelo tom grave ser tão diferente do da mãe, normalmente suave e constante.
quando tem uma roda de pessoas conversando, normalmente ele pára de brincar e fica com o olhar atento a todos os sons, todas as vozes; mas isso acontece especialmente com vozes masculinas.
não sei se acontece com outros bebês, mas é algo que estamos curtindo descobrir junto dele, observar, rir.
hoje pela manhã estava preparando o café com a nanã, tito na cadeirinha, e eu começo a cantar uma música do karnak, que tem o tom bem baixo, bem grave.
depois de um tempo olho para o lado e vejo ele me encarando com as sombrancelhas levantadas, a boca aberta e um olhar de "o que é isso que o papai tá fazendo?".
muito lindo.
eu parava de cantar e ele voltava a brincar, a se interessar pelas próprias mãos, pés, etc.
voltava a cantar e a mesma cara de atenção e surpresa voltava ao seu rostinho.
eu sorri.
será que isso acontece apenas pela diferença da voz mais aguda que ele ouve o dia todo, desde a gravidez?
será que instintivamente ele sabe que a sua voz ficará mais grave no futuro?
será que eu to viajando?
abraço.
até semana que vem!
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Matriarcado x Patriarcado
por: João Ricardo Keunecke
É de uma tradição afirmar uma idéia argumentando com a ajuda de parábolas ou metáforas, então, mais abaixo, segue uma lenda que recolhi em um livro ( não consigo me lembrar qual ), para apoiar o meu ponto de vista..
É de uma tradição afirmar uma idéia argumentando com a ajuda de parábolas ou metáforas, então, mais abaixo, segue uma lenda que recolhi em um livro ( não consigo me lembrar qual ), para apoiar o meu ponto de vista..
Penso que nós homens aprendemos a maturidade (entenda-se por participar de maneira rica, altruísta e responsável em nossa sociedade) passando de fase em fase; há a infância onde nos educamos física e mentalmente para as leis morais e éticas, uma baita diversão pois podemos transgredir à vontade; há a juventude onde experimentamos nossa capacidade de assimilação e resposta ao aprendido na infância (e é bonito como fazemos ajustes nesta fase, não? São algumas mulheres, viagens, ideologias, amigos e profissões) e então vem o “grande enfrentamento consigo” que é a construção de uma nova célula social, “ a família”. Acredito que não há nada mais eficiente como crescimento e inserção social para um individuo, aí temos que viver com o outro sexo e aprender essas demandas opostas e complementares às nossas. Não é fácil não, é tarefa para poucos que queiram fazer em alto nível, mas bem conduzido o encontro é de uma alegria sem igual.
A Lenda
Conta uma lenda indígena antiga que a tribo era comandada pelas mulheres. Estas se reuniam em uma grande oca que foi construída pelos homens e lá vivenciavam os mistérios (para os homens) da menstruação, gestação e parto. Os homens abasteciam essa grande oca com tudo que era pedido, mantinham respeitosa distancia da grande oca e ficavam admirados quando de tempos em tempos iam aparecendo de dentro da oca novos indiozinhos; era um poder e tanto destas mágicas mulheres. Certo dia um homem mais curioso rompeu o medo, superou a sacralidade que a grande oca inspirava e, aproximando-se, pôde observar o que se passava no interior desse lugar sagrado do matriarcado. Viu então as zombarias e as brincadeiras entre as mulheres com a ignorância dos homens sobre a natureza da fecundação e do nascimento dos indivíduos. Quando, este mais corajoso, levou a informação do que vira aos outros homens não tardou que uma grande raiva se formasse e, tomados por esse furor, invadiram a grande oca e massacraram todas as mulheres. Demorou um bom tempo para que as crianças meninas poupadas crescessem e se restabelecesse uma nova ordem na tribo, uma ordem patriarcal.
Com essa alegoria podemos resumir um pouco as origens do que foi a real passagem histórica do poder do matriarcado para o patriarcado que experimentamos já há alguns séculos, patriarcado esse que instalado foi anulando as mulheres, negando direitos, submetendo e até queimando vivas as que ousassem insistir contra.
Atualmente está em curso uma mudança, as mulheres vão conseguindo mostrar a necessidade de uma igualdade entre o masculino e o feminino. Alguns homens não aceitam e pretendem a velha tradição de submissão do feminino, e em cada lugar do mundo esta submissão é mais ou menos terrível. Já outros homens querem experimentar essa igualdade e se livram de velhas tradições construindo uma equiparação, tudo muito lento como qualquer ato da humanidade.
Meu ponto de vista pessoal consta de duas experiências: no primeiro casamento tive dois filhos e vivia uma tradição onde eu trabalhava bastante como diretor comercial e, como bom provedor, pagava boa escola, babás e tudo que a família precisasse. Tinha poder, mas não tinha a sensação de satisfação real e direta, sempre era indireto, sempre era a mãe que tinha essa intimidade com os membros da família.
Agora neste segundo casamento (quase dois filhos: o segundo estará chegando dentro de 3 meses) busco uma nova forma e me aproximo dos afazeres domésticos com mais intimidade e humildade, fico feliz em ver minha pequena (Sofia, 3 anos) crescer e brincar, sei que participei pois todos os dias acordo primeiro que minha esposa e preparo além da minha refeição a da pequena (suco e mingau), faço companhia enquanto ela come e aí sim começamos as brincadeiras e depois a escola.
Sei que é real, pois estou ali perto. Claro que depois vou sair para a uma vida social/profissional que também é rica, intensa e motivadora. Então, hoje em dia não tenho tensão em realizar afazeres domésticos e os acrescento ao meu trabalho profissional para a sociedade; não questiono mais, simplesmente me responsabilizo pela minha felicidade fazendo a minha parte, a parte da mulher é um problema dela, mas aí é outra história.
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João Ricardo Keunecke
Psicoterapeuta Junguiano ( Psicologia Profunda)
51 anos, Pai de Mauricio 21, Marina 18, Sofia 3 e com minha esposa grávidos do Marcos Victor ( esperado para maio 2010)
51 anos, Pai de Mauricio 21, Marina 18, Sofia 3 e com minha esposa grávidos do Marcos Victor ( esperado para maio 2010)
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
prontos para o grandioso 2010
quando 2009 começou a nanã e eu já sabíamos o que de maior naquele ano nos aguardava: a chegada de um filho. várias e várias pessoas diziam que nossas vidas mudariam muito, que dormiríamos pouco, que seria difícil, porém, gratificante.
acompanhamos cada semana de desenvolvimento intrauterino do tito com entusiasmo e ansiedade.
ele chegou em seu tempo, num parto domiciliar maravilhoso e... não sentimos que a nossa vida mudou tanto assim.
continuamos com nossos costumes caseiros, ouvindo nossas músicas, dando as nossas risadas, discutindo vez ou outra, discordando vez ou outra, nos entendendo sempre no final.
e com certeza estamos mais felizes, isso sim. e ainda mais estusiasmados com os avanços diários do nosso pequeno grande tito.
agora, 2010... puxa, esse sim será um ano enorme, grande, cheio de coisas que vão nos encher os olhos, nos deixar de boca aberta e ainda mais encantados.
ontem eu olhei para nosso filho e na hora pensei: nesse ano ele vai andar.
isso para mim foi gigantesco.
ao pensar mais a respeito, vieram outras constatações.
em três meses o leite materno deixará de ser a única fonte de alimento do tito e ele passará a comer também outras coisas, aos poucos.
em 2010, além de falar, ele vai andar.
em 2010 ele vai absorver mais e mais a cultura social ao seu redor.
em 2010 o tito vai beber água pela primeira vez.
e mais tantas e tantas coisas que acontecerão em seu pequeno corpo e cérebro, que com certeza causarão as mais diversas reações em seus pais abobalhados e contentes.
portanto, pela primeira vez em minha vida adulta eu não faço resoluções de ano novo.
somente pelas coisas citadas acima já tenho certo que 2010 será um ano grandioso.
(e que assim seja para todos nós)
até semana que vem.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
consumo e o papai noel que entalou na chaminé
hoje eu tive que ir ao shopping comprar um presente de amigo secreto. é claro que estava completamente lotado. mas isso eu já esperava, foi um detalhe que não me chamou tanto a atenção.
mas uma outra coisa me causou espanto e um certo desconforto: o modo como as crianças estão cada vez mais ligadas em consumo.
e, pelo o que tenho visto, é um desejo de consumir apenas. somente consumo, ponto.
lembra daquela frase em inglês "ashes to ashes", "das cinzas as cinzas"? pois é, do consumo ao... consumo.
vejo crianças que imploram por um brinquedo num dia e, dois dias depois de ganhá-lo, não dão a menor bola para ele, já que agora ela quer na verdade aquela outra coisa que passou na tv ou que o amiguinho tal está usando e... pronto, lá vai a criança com foco no consumo mais uma vez...
no shopping eu vi uma cena que me deixou curioso e ao mesmo tempo incomodado.
lá estava eu caminhando quando vejo uma mãe (siliconada, com as unhas grandes, um vestido curto e uma sandália com um salto maior que a sua própria perna) com um filho de mais ou menos uns quatro anos travando uma verdadeira batalha: os dois em frente a uma famosa loja de brinquedos, ele chorando e gritando para todos ouvirem que queria entrar pra ganhar algum brinquedo, e a mãe tentando tirá-lo dali, puxando-o para o sentido contrário dizendo que "não é hoje que o papai noel vai te dar presente. vamo embora!".
e assim foi por uns 10 minutos (to falando sério).
óbvio que os dois saíram tristes e frustrados do passeio.
o menino por achar que a mãe é uma malfeitora por não ter dado um presente novo a ele.
a mãe por se sentir uma incompetente pois não conseguiu lidar com a situação e também porque não cedeu a vontade do garoto.
andei por outros andares e fiquei prestando atenção nas crianças.
juro que só vi um menino feliz. todas as outras crianças estavam com a cara fechada, olhando feio para os pais, brigando, resmungando alguma coisa como "que saco, eu só queria tal coisa...".
olhares perdidos entre as vitrines, quase zero de interação com os pais (a não ser para reclamar, xingar, receber broncas e alguns puxões para andarem logo).
triste, bastante triste.
ok, quem tem filho grandinho pode pensar que eu estou sendo ingênuo e que "um dia eu chego lá" e vou ver o que é bom pra tosse, que meus filhos também serão assim.
pode até ser, mas uma coisa eu tenho bem claro em minha mente: eu vou manter meus filhos o mais distante possível dessa onda de consumo que tem assolado a infância dos nossos pequenos.
ah, se vou!
ao invés da velha abordagem "se você se comportar bem, no final do ano o papai noel vai te dar um presente", eu vou me esforçar junto com a nanã para buscar alternativas criativas e mais carinhosas como "que tal no natal a gente fazer uma viagem gostosa e ficarmos todos juntos por um tempão?", "nesse natal a gente vai visitar o zoológico", ou algo assim.
nunca concordei com essa história de que todo natal tem presente, tem papai noel trazendo "recompensas" pelo o que você fez ou deixou de fazer.
lembro de meus pais não criando uma fantasia exagerada a respeito do papai noel.
nunca ninguém da família se vestiu com as roupas do bom velhinho, nunca esperei nenhum presente dele (até onde me lembre), porque eu sabia que papai noel não existia e que se eu fosse ganhar um presente quem o daria seriam meus pais.
simples assim.
justo assim.
sem frustrações, sem pedidos exagerados.
e a na minha infância e na da minha irmã não faltava fantasia por conta disso. a gente brincava muito, ouvíamos historinhas, tínhamos nossos livros de contos de fadas, criávamos nossos mundos imaginários, etc, etc.
a nanã e eu ainda não decidimos se vamos falar que papai noel existe ou não, mas já é certo que não concordo em associar a imagem dele ao recebimento de presentes e mais presentes.
acho que isso, cedo ou tarde, pode se tornar um tiro que uma hora vai sair pela culatra.
e o resultado é decepção para os dois lados.
pra encerrar, nesse ano eu vi dois documentários sobre como o consumo está sendo tão bombardeado na cabeçinha tão inocente das crianças, que cada vez mais cedo passam a saber o nome das marcas e dos brinquedos e roupas da moda e cada vez mais tarde passam a saber o nome de frutas, legumes e boas histórias da literatura infantil.
eu acho uma pena.
é uma pena porque as crianças deixam de ser crianças cada vez mais cedo (para lá na frente se tornarem adultos bobos e infantilizados, que falam com voz de criança de propósito entre si, se tornam depressivos e emocionalmente dependentes por não terem tido uma infância plena e prolongada).
e também é uma pena pois a mídia voltada a criança pinta os pais como os vilões que não querem dar a ela seus objetos de desejo.
e aí o impasse está feito, o circo está armado e as cenas que eu vi hoje no shopping se tornam mais e mais comuns.
concordo que vivemos num mundo capitalista e eu mesmo assumo que sou capitalista sim.
mas eu não gosto do exagero que o consumo traz para a vida das pessoas.
desde pequeno aprendi a esperar para ter minhas coisas, a ouvir um "não" e saber respeitar essa palavra.
a ouvir um "sim" e dar um baita valor a essa outra, pois afinal eu tive que esperar a tão desejada palavrinha mágica chegar após pedir por algum presente.
na minha modesta opinião, acho que os pais devem se esforçar para passar mais tempo com suas crianças buscando formas alternativas de diversão, e não apenas dar coisas materiais para que elas se entretenham sozinhas ou entre si.
sentar na grama, brincar com barro, tomar banho de chuva, fazer sucos diferentes, visitar parques, assistir a filmes juntos.
há tanta coisa que pode entrar no lugar de "toma aqui seu brinquedo"!
para quem se interessar, seguem os nomes e os links para os vídeos que citei.
é de ficar revoltado com o que a mídia e as empresas vem fazendo para alcançar o público menor.
vídeo: criança, a alma do negócio
vídeo: consuming kids (legendado)
até a próxima semana.
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
balde 4: sling: pendurar ou não?
em diversas culturas africanas e asiáticas há séculos as mães usam panos e couros para pendurar seus bebês e com isso conseguir mais mobilidade para os afazeres diários e também manter a criança em contato contínuo com seus corpos para que assim se torne mais calma e segura.
há algumas décadas os países ocidentais tem adotado penduradores como o sling (que significa 'suspender' ou 'pendurar' em inglês) nas práticas de cuidado com os bebês, e os resultados positivos tem sido cada vez mais tangíveis e concretos.
no entanto, apesar da sua longínqua origem e de seu uso trazer uma série de benefícios - tanto para os pais como para os bebês - parece haver muito receio, muitas dúvidas e preconceitos a respeito dos slings.
uma rápida pausa: antes de resolvermos engravidar, eu procurei um sling para dar de presente à nanã, como uma prova de que "eu estava pronto" para a tarefa de ser pai. fui em algumas lojas e em duas delas as vendedoras me informaram que não tinham sling à venda e ainda me deram uma leve bronca, dizendo que isso faria mal para o bebê, que ele ficaria muito apertado envolto ao pano e que poderia fazer mal à sua coluna.
nem argumentei muito, saí à procura do item que seria um símbolo para a nossa decisão de ter um filho.
voltando às duvidas e aos preconceitos, em várias ocasiões quando estávamos em público com o tito as pessoas nos olharam com uma cara de "o que esses malucos estão fazendo com essa criança aí dentro desse treco?" e em alguns momentos rimos, noutros ignoramos, e, nas vezes em que éramos abordados por estranhos, argumentávamos sobre o bem do sling e o quanto isso acalma nosso pequeno filho.
certo. mas e os tais benefícios?
a primeira coisa que notamos ao usar o sling foi o benefício que ele traz para o sono do tito. ele fica muito mais calmo, pois recebe o calor do nosso corpo, ouve nossos batimentos cardíacos, sente a nossa respiração e fica constrito, tal como estava acostumado a ficar no útero.
muitos especialistas defendem que o sling para o bebê é justamente uma forma de regressão ao ventre materno, por isso ele se sente tão confortável e seguro.
outro grande benefício é a interação que o bebê tem com a mãe, que pode facilmente amamentá-lo enquanto carrega-o no sling.
a atenção e o carinho que o bebê recebe quando está no sling também é fundamental para a sua auto-estima. aliás, o pediatra norte-americano harvey karp, autor do livro e do dvd "o bebê mais feliz do pedaço" conta que há uma tribo africana chamada "kung" em que as mães carregam seus filhos pequenos por quase 24 horas em penduradores de couro. após um estudo, cientistas que acompanharam a tribo concluíram que esses bebês não choram ou quase nunca choram, e a conclusão é que isso se deve ao fato de eles terem as suas necessidades (de atenção, de carinho, de alimento, etc) atendidas imediatamente assim que eles nascem.
até aí, ok. mas a dúvida é inevitável: esses bebês não vão ficar mimados e mal acostumados demais?
o dr. karp tem a certeza do contrário.
ele defende que um bebê que é acalmado logo quando ele dá um sinal de alerta cresce mais seguro e confiante no mundo externo, já que seus pais nunca deram motivo para ele se desesperar ou entrar em pânico quando algo o assusta. dessa forma, o bebê tende a se tornar mais independente conforme cresce e seguro em relação ao acontecimentos fora do ventre de sua mãe.
quando perguntado se os bebês que recebem muito colo - ou que passam muitas horas do dia pendurados em slings - vão ficar mal acostumados, o dr. karp diz que na verdade os bebês recém-nascidos já saem do útero acostumados com calor, com os barulhos do corpo de sua mãe, com alimento à vontade e à qualquer momento.
ele passou meses num ambiente que provia essa estabilidade e agora fica horas num cenário totalmente novo, por isso é normal o bebê se assustar e se irritar com as coisas mais bobas (como uma vontade de arrotar) e então chorar.
se você passar metade do dia com seu bebê pendurado num sling ou outro tipo de pendurador parecido, já estará cortando 50% do tempo em que ele está acostumado a ter do conforto que tinha quando estava no útero.
fora isso, o dr. william sears, pediatra que cunhou pela primeira vez o termo attachment parenting, concluiu que o ato de carregar os bebês estimula a liberação do hormônio progesterona (que estimula a produção de leite) na mãe, aumentando o laço afetivo entre mãe e filho, e diminui a incidência de depressão pós-parto e outras doenças psicossomáticas na mulher.
ele diz também que os bebês que são frequentemente 'pendurados' tem maior interação social, pois estão mais próximos às pessoas e dessa forma podem estudar expressões faciais, aprender a linguagem nativa mais rapidamente e se tornar mais familiares à linguagem corporal.
eu tentei encontrar desvantagens sobre o uso de slings e wraps e juro que não encontrei nenhuma.
até semana que vem.
abraço
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